sexta-feira, 27 de março de 2015

Um adeus a casa amarela.

Fui lá pela última vez e revi cada cômodo me despedindo desta velha vida. Minhas vizinhas já haviam partido; companheiras de longa data. Fique triste, pois não houve nem um até logo. Nem tanto pela dona Valdete, havia uma grade entre nós. Mas a Rosilene... Queria ter lhe dado um presente, lhe dito, vá com Deus.

Lembro-me, não como se fosse ontem, já se perderam alguns detalhes, ou muitos deles. Foi início de novembro de 2009, ou foi final? Bem, por ai. O fato é que sempre tive alma cigana, pelo menos desde que sai da casa dos meus pais. Era sempre dois ou três anos e começava a encaixotar as coisas. Podia sempre ir, pois tinha meu porto seguro.

Mas não na casa amarela. E olha que não tinha nada de especial. No fundo de outras duas casas, a garagem um corredor que apanhei para aprender a guardar meu carro, um sistema elétrico problemático. Toda amarela, o que deixava as fotos dentro da casa com uma cor bem especifica, coisa que minha filha detestava.

Cheguei à casa amarela com muito pouco nas mãos além de esperança. Era só mais uma chance, uma nova chance. Mesmo meio perdida, emprego incerto, futuro incerto eu sabia que seria feliz ali. Não que eu não tenha passado dificuldades, mas onde quer que eu estivesse, acho que as passaria, faz parte da vida...

Na casa amarela, minhas crianças deixaram de ser criança. Eu deixei de ser criança. Estabeleci novos limites e me perdi em minhas liberdades, cresci , amei, criei... Aprendi a ficar só, e amei ficar só. Amei o silencio das manhãs, amei poder ouvir meus pensamentos, amei não pensar em nada.  

Não é fácil construir algo sozinha, então pedi ajuda e construímos a três mãos, com três fortes pilares. Como eu vivi bem ali, foram anos maravilhosos. Tudo bem sou uma pessoa grata, pois sempre vivi maravilhas onde estive, mas lá foi especial. Lá na casa amarela, eu me encontrei, encontrei minha paz. Passei a ter um novo porto seguro, um construído por mim.

E quando abro o portão e tiro o carro pela última vez, quem vem na rua, improvável, Rosilene. E nos falamos pela última vez, conversamos como se ainda fossemos nos ver amanhã, como se ainda fossemos ser vizinhas, falamos da imobiliária, dos preços e do tempo. Não demos um abraço, nem um adeus, não trocamos telefones nem endereços. Inconscientemente sabíamos que tinha que ser assim. 

Houve só uma pausa e um profundo olhar. Um olhar que dizia tudo, me desculpe, vá com Deus, boa sorte e principalmente obrigada. Obrigada por estar sempre ali a uma janela de distância, obrigada por me fazer sentir segura, por não me julgar. Por não me dar bons dias vazios, mas ajudar-me em minhas solicitações. Obrigada por me ver, porque eu te vejo.

Enfim compreendi que é nas pausas que as mais profundas coisas são ditas. Entrei no carro e me dirigi para um novo capitulo dessa historia, da minha história. 
THelrigle


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